Friday, December 25, 2009
um poema imaturo e narcisista
o fulcro da minha programação é uma criança, isto é,
tenho uma criança junto aos ossos que me fuça
a carne, digo, que me remexe a carne com o focinho
em busca de um fruto, portanto, de um pomo que
se tenha perdido entre tendões e nervos, o âmago,
ou seja, o meu umbigo interior, está iluminado por
muitas velas acesas dentro de cascas de caracol
vazias, desabitadas, e uma criança fuça-me a carne
com o nariz, por dentro, com o focinho, claramente,
por não ver com os olhos, só negros, só apagados,
só (etc., quem me dera saber recorrer a um deus
da gramática que se me entranhasse e me fizesse
saber escolher todos os poemas, todas as frases,
o fulcro da minha programação é uma criança, isto é,
junto aos ossos, talvez nas costelas ou no úmero ou
numa omoplata, uma criança, um garoto, um miúdo,
com as unhas e o focinho remexendo a terra da
minha carne, em busca de um bolbo, em busca de um
bulbo - substantivo masculino, o mesmo que
Bolbo) reticências
ah!, tão cansativas, as reticências...
Posted at 08:25 pm by
groze
Janela
Sunday, December 13, 2009
(deixa o coração murchar e devagar
cair sobre um terreno como se fora
uma árvore.)
quando contarmos os frutos que
dele crescerem talvez encontremos
animais mitológicos ressuscitando.
Posted at 04:32 pm by
groze
Janela
Tuesday, December 08, 2009
a reconstrução do universo
tu és a nova aurora, a nova sarça ardente,
escondendo segredos no útero e na
garganta, acendes as fogueiras para que o
mundo acorde numa manhã imensa e
eterna, e no teu seio cresce uma
esperança de vida infinita. o
planeta gira sobre o teu corpo
prenhe, os teus dentes trincando vidros,
partindo-os, as tuas gengivas sangrando,
tudo escondido atrás de uma poeira
dourada, és a nova aurora, e faltam uns
meses apenas para que o mundo se
despenhe num abismo de electricidade
estática.
Posted at 07:24 pm by
groze
Janela
Sunday, December 06, 2009
para a Eva
Quando fugirmos daqui, deixando tudo para trás num
incêndio, repararemos que os cisnes que
nunca magoámos morreram todos, não demos por isso,
não fizeram barulho, não choraram, não cantaram.
Dizes-me que pare com as analogias e com o
sincretismo, os cisnes não cantam quando morrem, isso
são mitos. O que me entristece é que também os teus
dedos são mitos, com as tuas unhas brilhantes no fim de
cada um, e não tomas as minhas palavras como verdades
em relação aos cisnes. Pisamos muitos estilhaços de
vidros e de espelhos no caminho, vamos todos sujos de
pó e de sangue, ainda roubámos penas como lembrança aos cisnes.
Posted at 09:02 pm by
groze
Janela
Saturday, December 05, 2009
sacratíssimos corações de jesus e maria
noutro plano de existência um eu atravessa
uma floresta de borracha onde as aves,
mortas, são penduradas de cabeça para baixo
nos ramos, as patas atadas com um cordel. e
conforme avança nada lhe faz sentido, nem
as nuvens, por entre a copa escura das árvores,
nem os arbustos que cresceram onde se plantou
um sangue muito antigo. vou tendo conversas
com deus e com os múltiplos de mim, sem o
saber, contando estrelas e cabelos e grãos de
areia, repetindo-me na contagem, perdendo-me,
sem notar que já estou a dar uma terceira volta,
que sei o número exacto das estrelas, das
nebulosas, dos cabelos que tenho na cabeça,
dos grãos de areia que existem nas praias onde
queimei a minha infância. noutro universo um eu
que atravessa uma floresta de borracha onde as aves,
mortas, são penduradas de cabeça para baixo
nos ramos, as patas atadas ainda com um cordel,
nunca beijou uma mulher e desconhece o incêndio
botânico do amor, do sangue nas pernas e no
pescoço. e não o entende por mais que eu explique,
as coisas são diferentes, por lá, espelhos oblíquos
nas nuvens luminosas, fazendo a vez de um sol.
Posted at 02:52 pm by
groze
Janela
Wednesday, December 02, 2009
auto-comiseração em duas partes
(se ao menos o meu coração
não rangesse como madeira húmida
de muitos anos sempre que os meus olhos
vêem o que querem ver, sempre que os meus
ouvidos ouvem o que querem ouvir, sempre
que as minhas mãos tocam o que querem
tocar...)
fim de citação, fecha parêntesis, compra
um aquário.
Posted at 01:27 am by
groze
Janela
Tuesday, December 01, 2009
dá-me um segundo para desembaraçar estes nós no peito
e colher um fruto de uma árvore inexistente para o pôr
nas tuas mãos, que só existem para carregar frutos e palavras,
dá-me um segundo para ler as coisas que escreveste,
para ouvir as tuas luzes quando falas e quando cantas
e quando tocas e quando escreves. é possível que nos
estejamos a desfazer sem notar, limpamos um pó de cima dos
ombros quando chegamos tarde a casa e são restos nossos;
depois fingimos que adormecemos e nada, não adormecemos
nada, foi só uma voz mais calada dentro das nossas cabeças.
enquanto a minha esposa morria, consumida num incêndio
perto das colmeias, eu comia uma uva, fascinado pelo
brilho aquático dentro da minha boca, e olhava da janela e pensava
que não sabia já pensar em nada, nem em música, nem em frutos,
nem em vozes, nem em palavras, nem nada...
e despedimo-nos sem que sequer me deixasses aperceber
que era isso que tinhas feito.
Posted at 11:00 pm by
groze
Janela
Monday, November 30, 2009
há dias em que a minha alma
- se eu acreditasse nisso -
é um espaço com correntes de ar
junto ao coração.
Posted at 07:06 pm by
groze
Janela
Sunday, November 29, 2009
sempre o meu pai aqui atrás respirando
nas minhas costas limpando os dentes com a
língua e todas as minhas vísceras contendo-se
e revolvendo-se para não lhe dar com a mão
fechada na cara ou outro local onde lhe doa
muito. e é como se a língua e a saliva e os dentes
respirassem nas paredes de repente e o meu
pai é um réptil inacabado, uma coisa trocada
com língua bifurcada e escamas cobrindo a
maior parte do corpo.
Posted at 07:35 pm by
groze
Janela
Friday, November 27, 2009
em novembro, um hamster numa caneca colorida
às dez e meia estava outra
vez em casa a descascar
uma cebola sem analogias
sem imagens sem metafísica
sem nada sem roupa só
a realidade: os meus dedos
são noventa por
cento das vezes
inúteis noventa por cento
dos meus dedos
são inúteis noventa
por cento das vezes, assim mesmo
e tremem com a faca e a cebola
para o jantar em cima da mesa
o relógio digital piscando
"a luz faltou há catorze horas
por favor
acerta-me"
descasco uma cebola e quando
choro arrasto as lágrimas pela cara
com a parte de fora
do pulso.
Posted at 05:08 am by
groze
Janela