existem estas pessoas que foram existindo, é certo, mas agora já não. existem só como fragmentos de que nos lembramos muitas vezes ou só de vez em quando, nas alturas em que conversamos sobre o passado, e desenterramos lá de dentro essas criaturas, não as de hoje, nem nós com elas, outras imagens, outras pessoas, a ouvir os dramas do amor alheio, tão alheio a nós, fechados, com o enfado de quem não quis saber (nunca quisémos saber do amor dos outros a menos quando nos serviu a nós). o amor dos outros doía-lhes e é possível calcular que lhes doía, hoje também já sofremos um tanto, já crescemos, já aprendemos e desaprendemos tantas coisas e sabemos o que custa, o que aperta a garganta quando expomos a doença do nosso amor, quando a mostramos a quem não quer saber. no entanto, volta e meia também nós não queremos saber, ainda, e tudo são só os melodramas dos outros, as suas hecatombes pessoais, coisas de que não precisamos nem queremos saber. mas fingimos. vamos fingindo muito bem. e dizemos que é isso que dói mais, sempre, quando o que dói mais, sempre, é ter de continuar com isto, com esta solidão disfarçada em vegetais marinhos, com a cidade, com os museus e o cinema nas noites de quarta-feira.
são precisas cinquenta avelãs para uma embalagem de nutella, diz-me a ferrero, num rótulo de um boião vítreo vazio. lavo as coisas de plástico e de vidro, depois de usadas. existe sempre uma esperança escondida de que as coisas que já não servem possam ser como fénixes domésticas, citadinas, a renascer antes do lixo para terem uma utilidade. e enquanto ocupam um espaço precioso na despensa, no lugar onde deviam estar coisas novas, pondero sobre se as devo usar como receptáculo de óleo vegetal usado ou campânula onde guardar as sobras do jantar dentro do frigorífico.
a amiga galega lê os cadernos sentada sob um candeeiro lê alto noutra língua parecida (é tudo latim, querido) mas é a sua língua que se move na língua que fala - a língua é a maior invenção do ser humano uma palavra vale mil imagens e não o inverso uma fotografia de um homem é sempre só um homem mas a palavra homem pode remeter para tantas imagens com tantos sentidos e até é bom que não sejamos explícitos quando falamos porque assim sempre temos um meio de defesa da nossa individualidade diz também a amiga galega levantando os olhos dos cadernos a palavra amor é que com o avançar da idade e do tempo por mais que o tempo não exista o avançar do tempo se exibe impositivamente como um extra lexical uma adenda para qualquer coisa que falta no espaço e nem só no concreto e palpável da vida uma palavra só fonemas e grafemas amor mas sem significante a que se pegar a que se dar por isso prefiro ouvir os poemas nessa língua extraordinária e incomum estranha a princípio e desejar a língua muscular da amiga galega a aparecer e a desaparecer por entre os lábios e ouvir apenas a palavra amor como uma coisa sem sentido nem pragmática uma coisa oca onde se pode pôr dentro o que se quiser.
moro aqui. dentro desta casa no terceiro andar. não posso abrir as janelas por causa das moscas e de outros bichos alados que tremem contra as coisas mais orgânicas, à noite (cortinas, maioritariamente), esfregam-se no tecto, estuporados da falta de céu, e despenham-se contra os tacos do chão num frémito assustador de nojo e de compaixão. é preciso cobrir os copos que ainda existam esquecidos sobre a mesa, para que nenhum animal morra dentro da água, do leite ou do vinho. as vizinhas da frente são novas e riem, ouve-se deste lado quando ambos temos, por uma ocasião de fortuna e auspício, as janelas abertas. ouço-as rir e não tenho nada para lhes dar, ligo a música e ofereço-lhes miles davis john coltrane dave brubeck ainda a tentar acreditar que os seus corpos tão novos se consigam comover com esta música sem que as suas cabeças se cansem e lhes sugiram "música de velhos". mas elas riem alto e conversam, não ouço o que dizem mas vale a pena deixar entrar as moscas se ao menos posso ouvir as vizinhas da frente rir do lado de lá da rua, vê-las moverem-se pela casa, ilusionistas do movimento, da física, metades, quartos, percentagens de raparigas novas a surgir e a ocultar-se, de vez em quando os cabelos novos e os ombros, um decote, do lado de cá olho-as quando escurece, as moscas e os insectos mais rijos sentam-se nas minhas mãos e pedem-me cigarros.
Sara sabe falar hebraico e alemão, quanta improbabilidade, toca piano e tem as unhas amarelas do tabaco, gosta de ler Boris Vian e Gregory Corso, tem um ou outro poema de Rimbaud na parede do quarto, uma casa maltratada perdida num bairro da cidade. Sara ouve Édith Piaf mas só porque sim. Não gosta, mas é uma boa banda sonora para a existência. Um bom filme para se seguir. Sara não ama ou acha-se incapaz de amar. De vez em quando apaixona-se por pessoas, homens que lêem Thomas Pynchon e William Burroughs nos cafés. Quando esses homens existem. Isso é quase nunca. E Sara sofre com a improbabilidade disso. Sofre com as exigências claustrofóbicas do amor.
"a poesia é um lugar onde os corações destruídos, com cicatrizes, com mágoas, meu amigo, já não pertencem. a poesia é necessaria- mente uma coisa juvenil, com o avançar das coisas, conforme vamos colocando o coração noutro sítio, entramos numa idade de prosa, tornamo- -nos prosadores, pensadores, porque a prosa é a plataforma propícia à transmissão de ideias, é a organização mental que ordena de maneira correcta o coração triste que envelhece." porque escreves assim, porque metes isto em versos, não faz sentido, meu caro, há coisas que funcionam melhor em prosa, não é? isto é um texto de prosa, não é?
acontece que o meu coração é ainda juvenil e que vive ainda como um coração recém-nascido e chora e grita e contorce-se no meio dos ossos do peito, ilumina-me os ossos do peito, e isto é em prosa, isto é sempre tudo prosa, só que a minha cabeça não acompanha a dor ou a luz do coração, não consegue pensar o que a alma sussurra (porque a alma fala em golfos) e por isso é prosa só que com a cadência, com a sintaxe, com a fragmentação do que a cabeça pensa do que o coração vive, e dá-se que a cabeça não acompanha a alma e fala, pensa em quebra de linha. em código html sucedem-se <br> na cabeça porque o mar do corpo, o pássaro que responde ao amor, etc, vive em sobressaltos de vida e de angústia, sobreviveu aos gregos aos latinos aos renascentistas aos românticos aos realistas aos modernistas sobreviveu ao amor sem nunca ter deixado de acreditar nele, grita como um recém-nascido e precisa de mamar como um recém-nascido, de se aninhar no meio do espaço infinito (maravilhosamente infinito) que existe nos decotes alheios, precisa de música e de jarros com flores e mobiles pendurados no tecto (mamas) , distrair-se da economia e da matemática com o árduo trabalho da respiração e do amor porque, por mais que o repitam, o amor não está destruído nem se destrói com o tempo, está só perdido dentro de uma casa deixada ao abandono, por isso é que a cabeça, a cabeça que fala pelo corpo pelo coração fala em desalinho, em momentos de oralidade poética, de desconforto filosófico e lexical.
no meio do acidente procurar por um braço nos escombros e ter em mente as coisas que o mar deixa na costa baleias mortas e caranguejos restos de redes golfinhos anémonas culpar deus e os antepassados todos chorar pensar "um piano ficava bem aqui" e figos recém plantados a rebentar debaixo do chão a morrer debaixo do chão para darem figos novos para darem raízes e troncos de árvores malditas "estupores" procurar "fiquei sem a porra do braço e agora meu deus?" por entre os cacos de plástico e as superfícies prateadas argênteas para quem preferir a porra do braço e esquecer o pânico de não estar inteiro ver animais ao longe inteiros parados veados e coisas dessas a olhar imaginar "um deles (calcular) levou-me o braço e agora?" o mar dá baleias mortas à costa e crustáceos e pescadores e da autoestrada não se vislumbra nada disto.
só me ocorrem clichés, banalidades, sexo com um bocado de paz no fim, pequenos-almoços em cafés minúsculos com pão quente e leite fresco, talvez uma laranja, em cima. tenho horror porque me olho e a minha cabeça, aliás, dentro da minha cabeça há qualquer efeito absurdo, vejo-me ao espelho porque todos os dias isto é igual, as frases são as mesmas, tenho medo de ver que dentro da minha cabeça está tudo a transformar-se em zircónio, número atómico 40. apetece-me dizer "paz no fim de foder", mas acima de tudo era bom descansar um bocado, experimentar chaves, ver quais abrem esta ou aquela fechadura, só porque muitas vezes me esqueço. devia ter dito "esqueci-me de te amar tal como me esqueço de que chaves abrem que fechaduras". não me devia ter esquecido de te amar, lembrar-me do trabalho do amor, isso que é um tipo de jardinagem (só me ocorrem lugares-comuns). assusto-me com os meus olhos porque reflectem uma dor cristalina - mas antes de mais cristalizada - e custa-me tanto não me emocionar mais com a vida real, só com os filmes, às quatro da manhã, talvez nem emoção, só cansaço, só uma dívida de lágrimas que o cansaço acorda (há quanto tempo é que não choras a sério? há quanto tempo não te preocupas?) e no meio disso uma semente de zircónio (Zr) dentro da cabeça a multiplicar-se como nos filmes, como nos livros mas acima de tudo como nos filmes. ocorre-me dizer-te coisas mas são tão pouco nossas, são só coisas gerais, que toda a gente diz a toda a gente, peças que encaixam, que servem. tenho horror de estrelar ovos também, tenho uma cruz cheia de pó pendurada na parede do quarto, às vezes isso ajuda a que as coisas de todos os dias sejam mais conexas, façam mais sentido. sinto falta de julho e de receber cartas no correio mas nunca me lembrei que, antes de mais, não escrevi cartas a ninguém, nos últimos anos. devagar lembro-me de que chave abre o quê, lembro-me de tigres a lamber zircónio nas florestas, lembro-me de segurar nádegas debaixo de água e de sentir o calor de um sexo a envolver o meu sexo, de como tudo aquilo fazia sentido debaixo de água, de como é provável que fizesse mais sentido, que fosse tudo mais coeso, se respirássemos debaixo de água.
A língua pode renascer em qualquer altura. O vento agita os ramos altos do cipreste; no escuro mármore lê-se ainda o meu nome. Morto, mas subitamente mais vivo, ouço os vastos barulhos terrestres e o anúncio subterrâneo da próxima catástrofe. Rindo-me para os bichos de quem sou a fria morada, abro e fecho os ossos do rosto num esgar de gozo. «Em breve o meu corpo regressará à superfície. Encontrar-me-eis, ó gente humana, nas idênticas circunstâncias do Juízo.» Nessa noite, os coveiros notaram uma insólita agitação no fundo da terra.
Nuno Júdice, in O Mecanismo Romântico da Fragmentação (1972)
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