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lonely 1



Saturday, January 28, 2012
último beijo na paragem do autocarro

para a Sara

existem estas pessoas que foram existindo, é certo,
mas agora já não. existem só como fragmentos de
que nos lembramos muitas vezes ou só de vez em
quando, nas alturas em que conversamos sobre
o passado, e desenterramos lá de dentro essas
criaturas, não as de hoje, nem nós com elas, outras
imagens, outras pessoas, a ouvir os dramas do amor
alheio, tão alheio a nós, fechados, com o enfado de
quem não quis saber (nunca quisémos saber do amor
dos outros a menos quando nos serviu a nós). o amor
dos outros doía-lhes e é possível calcular que lhes doía,
hoje também já sofremos um tanto, já crescemos, já
aprendemos e desaprendemos tantas coisas e sabemos
o que custa, o que aperta a garganta quando expomos
a doença do nosso amor, quando a mostramos a quem não
quer saber. no entanto, volta e meia também nós
não queremos saber, ainda, e tudo são só os melodramas
dos outros, as suas hecatombes pessoais, coisas
de que não precisamos nem queremos saber.
mas fingimos. vamos fingindo muito bem. e dizemos
que é isso que dói mais, sempre, quando o que dói mais, sempre,
é ter de continuar com isto, com esta solidão disfarçada
em vegetais marinhos, com a cidade, com os museus e o
cinema nas noites de quarta-feira.

Posted at 04:28 am by groze
comentário (1)  

Sunday, January 22, 2012
sonata para serrote e jerry can

são precisas cinquenta avelãs para uma embalagem de
nutella, diz-me a ferrero, num rótulo de um boião vítreo
vazio. lavo as coisas de plástico e de vidro, depois de usadas.
existe sempre uma esperança escondida
de que as coisas que já não servem
possam ser como fénixes domésticas,
citadinas, a renascer antes do lixo para terem
uma utilidade. e enquanto ocupam um espaço
precioso na despensa, no lugar onde deviam
estar coisas novas, pondero sobre se as devo usar
como receptáculo de óleo vegetal usado
ou campânula onde guardar as sobras do jantar
dentro do frigorífico.

Posted at 05:15 am by groze
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Wednesday, January 11, 2012
lingoaxe II

a amiga galega lê os cadernos sentada sob um candeeiro
lê alto noutra língua parecida (é tudo latim, querido)
mas é a sua língua que se move na língua
que fala - a língua é a maior invenção do ser humano
uma palavra vale mil imagens e não o inverso
uma fotografia de um homem é sempre só um homem
mas a palavra homem pode remeter para tantas imagens
com tantos sentidos e até é bom que não sejamos
explícitos quando falamos porque assim sempre temos
um meio de defesa da nossa individualidade diz
também a amiga galega levantando os olhos dos cadernos
a palavra amor é que com o avançar da idade
e do tempo
por mais que o tempo não exista
o avançar do tempo
se exibe impositivamente como um extra lexical
uma adenda para qualquer coisa que falta no espaço
e nem só no concreto e palpável da vida
uma palavra só fonemas e grafemas
amor
mas sem significante a que se pegar a que se
dar por isso prefiro ouvir os poemas nessa língua
extraordinária e incomum estranha a princípio
e desejar a língua muscular da amiga galega a aparecer
e a desaparecer por entre os lábios
e ouvir apenas a palavra amor como uma coisa
sem sentido nem pragmática
uma coisa oca
onde se pode pôr dentro o que se quiser.

Posted at 08:01 pm by groze
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Sunday, January 08, 2012
o dia do para-suicídio de Sofia

moro aqui. dentro desta casa no terceiro andar. não posso abrir as
janelas por causa das moscas e de outros bichos alados
que tremem contra as coisas mais orgânicas, à noite
(cortinas, maioritariamente), esfregam-se no tecto, estuporados
da falta de céu, e despenham-se contra os tacos do chão num
frémito assustador de nojo e de compaixão. é preciso cobrir os copos
que ainda existam esquecidos sobre a mesa, para que nenhum animal
morra dentro da água, do leite ou do vinho. as vizinhas da frente são
novas e riem, ouve-se deste lado quando ambos temos, por uma
ocasião de fortuna e auspício, as janelas abertas. ouço-as rir e
não tenho nada para lhes dar, ligo a música e ofereço-lhes
miles
davis
john
coltrane
dave
brubeck
ainda a tentar acreditar que os seus corpos tão novos se consigam
comover com esta música sem que as suas cabeças se cansem e lhes
sugiram "música de velhos". mas elas riem alto e conversam, não ouço
o que dizem mas vale a pena deixar entrar as moscas se ao menos
posso ouvir as vizinhas da frente rir do lado de lá da rua,
vê-las moverem-se pela casa, ilusionistas do movimento, da física,
metades, quartos, percentagens de raparigas novas a surgir e a
ocultar-se, de vez em quando os cabelos novos e os ombros, um
decote, do lado de cá olho-as quando escurece, as moscas e os insectos
mais rijos sentam-se nas minhas mãos e pedem-me cigarros.

Posted at 06:58 pm by groze
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Thursday, December 29, 2011
uma garagem ao sol, outono

o fim é sempre mais complicado, uma pedra
não responde "peixe", mas "cavalo".

um mealheiro no lixo, loiça, é vidrado por
fora, tem o coração despedaçado, por dentro, e está vazio.

a madeira responde peixe às perguntas, o caminho
não entende "peixe", só "pedra".

um candeeiro iluminava o dinheiro que se guardava
no mealheiro, e esta aliteração era funcional.

o mealheiro é um "peixe" com um nome pintado
no dorso, uma miúda que agora deve ter filhos.

uma miúda quando morre perde um bocado de luz
e fica só morta, já não come nem se senta à mesa.

a cadeira fica vazia e o tempo faz-lhe coisas,
torna-a frágil e húmida, começa a ranger e a desfazer-se.

um homem volta para casa, fuma no caminho para casa,
tem os bolsos cheios de metáforas e de sintaxe, mas os dedos frios.

uma pedra diz "cavalo", uma miúda morta ouve "cavalo" e sorri,
pensa "peixe" e lembra-se do mealheiro que deitaram no lixo.

a cadeira já não serve como cadeira mas continua-se a chamar-lhe
"cadeira", porque tem ainda a forma de uma cadeira.

os bolsos do homem não escrevem poemas e portanto
não lhes interessa a sintaxe e a pragmática que os enche.

se alguém colocar o mealheiro em cima da cadeira ela parte-se,
e aí o seu nome será "cadeira-partida", mas é apenas "madeira".

uma pedra sonha com madeira mas só tem capacidade de dizer
"peixe" e isso não serve de nada, é um nome reflectido no tempo.

Posted at 03:45 am by groze
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Wednesday, December 28, 2011
cronologia linfática e a falta de cálcio

Sara sabe falar hebraico e alemão,
quanta improbabilidade,
toca piano e tem as unhas amarelas do tabaco,
gosta de ler Boris Vian e Gregory Corso,
tem um ou outro poema de Rimbaud na
parede do quarto, uma casa maltratada
perdida num bairro da cidade. Sara
ouve Édith Piaf mas só porque sim. Não
gosta, mas é uma boa banda sonora
para a existência. Um bom filme para se seguir.
Sara não ama ou acha-se incapaz de amar.
De vez em quando apaixona-se por pessoas,
homens que lêem Thomas Pynchon e
William Burroughs nos cafés.
Quando esses homens existem. Isso
é quase nunca. E Sara sofre com a improbabilidade
disso. Sofre com as exigências claustrofóbicas
do amor.

Posted at 04:28 am by groze
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Saturday, December 24, 2011
yaourt dans le miroir

n'oubliez pas de m'aimer,
s'il n'y a rien
laissé.

não te esqueças da cor rouge

dos teus lèvres

e não te esqueças de respirar lentamente.

se eu me esquecer de respirar,
fala-me dos teus
lèvres rouges e respira devagar para dentro de
um saco de papel,

não hiperventilemos
antes do tempo.

Posted at 01:52 am by groze
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da desordem e do vinho barato

"a poesia é um lugar onde os corações destruídos, com cicatrizes,
com mágoas,
meu amigo, já não pertencem. a poesia é necessaria-
mente
uma coisa juvenil, com o avançar das coisas,
conforme vamos colocando o coração noutro
sítio, entramos numa idade de prosa, tornamo-
-nos prosadores, pensadores, porque a prosa
é a plataforma propícia à transmissão de ideias,
é a organização mental que ordena
de maneira correcta o coração triste que
envelhece." porque escreves assim,
porque metes isto em versos, não faz sentido,
meu caro, há coisas que funcionam melhor
em
prosa,
não é? isto é um texto de
prosa,
não é?

acontece que o meu coração é ainda
juvenil e que vive ainda como um coração
recém-nascido e chora e grita e
contorce-se no meio dos ossos do peito,
ilumina-me os ossos do peito,
e isto é em prosa, isto é sempre tudo
prosa,
só que a minha cabeça não acompanha
a dor ou a luz do coração, não consegue
pensar o que a alma sussurra
(porque a alma fala em golfos)
e por isso é prosa só que
com a cadência,
com a sintaxe,
com a fragmentação do que a cabeça pensa
do que o coração vive,
e dá-se que a cabeça não acompanha
a alma e fala, pensa
em quebra
de linha.
em código html sucedem-se <br> na cabeça
porque o mar do corpo, o pássaro que responde
ao amor, etc,
vive em sobressaltos de vida e de angústia,
sobreviveu aos gregos aos latinos aos renascentistas
aos românticos aos realistas aos modernistas
sobreviveu ao amor sem nunca
ter deixado de acreditar nele,
grita como um recém-nascido e precisa de mamar
como um recém-nascido, de se aninhar no meio
do espaço infinito
(maravilhosamente infinito)
que existe nos decotes
alheios,
precisa de música e de jarros com flores e
mobiles pendurados no tecto
(mamas)
,
distrair-se da economia
e da matemática com o árduo trabalho da respiração
e do amor
porque, por mais que o repitam,
o amor não está destruído nem se destrói com o tempo,
está só perdido dentro de uma casa deixada
ao abandono,
por isso é que a cabeça, a cabeça que fala pelo
corpo pelo coração
fala em desalinho, em momentos de
oralidade poética,
de desconforto filosófico e
lexical.

Posted at 01:27 am by groze
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Monday, December 12, 2011
errata

no meio do acidente procurar por um
braço nos escombros e ter em mente
as coisas que o mar deixa na costa
baleias mortas e caranguejos
restos de redes golfinhos anémonas
culpar deus e os antepassados todos
chorar
pensar
"um piano ficava bem aqui"
e figos recém plantados a rebentar
debaixo do chão
a morrer debaixo do chão
para darem figos novos
para darem raízes e troncos
de árvores malditas
"estupores"
procurar "fiquei sem a porra do braço
e agora meu deus?"
por entre os cacos de plástico e as superfícies
prateadas
argênteas para quem preferir
a porra do braço e esquecer o pânico
de não estar inteiro ver animais ao longe
inteiros parados
veados e coisas dessas
a olhar
imaginar
"um deles
(calcular)
levou-me o braço e agora?"
o mar dá baleias mortas à costa
e crustáceos
e pescadores
e da autoestrada não se vislumbra nada disto.

Posted at 11:52 pm by groze
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garganta

só me ocorrem clichés, banalidades,
sexo com um bocado de paz no fim,
pequenos-almoços em cafés minúsculos
com pão quente e leite fresco, talvez
uma laranja, em cima. tenho horror
porque me olho e a minha cabeça,
aliás,
dentro da minha cabeça há qualquer
efeito absurdo, vejo-me ao espelho
porque todos os dias isto é igual,
as frases são as mesmas, tenho medo
de ver que dentro da minha cabeça
está tudo a transformar-se em
zircónio, número atómico 40. apetece-me
dizer "paz no fim de foder", mas acima
de tudo era bom descansar um bocado,
experimentar chaves, ver quais abrem
esta ou aquela fechadura, só porque
muitas vezes me esqueço. devia ter dito
"esqueci-me de te amar tal como me esqueço
de que chaves abrem que fechaduras". não
me devia ter esquecido de te amar, lembrar-me
do trabalho do amor, isso que é um tipo
de jardinagem (só me ocorrem lugares-comuns).
assusto-me com os meus olhos porque
reflectem uma dor cristalina - mas antes
de mais cristalizada - e custa-me tanto
não me emocionar mais com a vida real,
só com os filmes, às quatro da manhã,
talvez nem emoção, só cansaço, só
uma dívida de lágrimas que o cansaço
acorda (há quanto tempo é que não
choras a sério? há quanto tempo não
te preocupas?) e no meio disso uma semente
de zircónio (Zr) dentro da cabeça a multiplicar-se
como nos filmes, como nos livros mas acima de tudo
como nos filmes. ocorre-me dizer-te
coisas mas são tão pouco nossas, são só
coisas gerais, que toda a gente diz a toda
a gente, peças que encaixam, que servem. tenho
horror de estrelar ovos também, tenho uma
cruz cheia de pó pendurada na parede do
quarto, às vezes isso ajuda a que as coisas
de todos os dias sejam mais conexas, façam mais
sentido. sinto falta de julho e de receber cartas
no correio mas nunca me lembrei que, antes
de mais, não escrevi cartas a ninguém, nos
últimos anos. devagar lembro-me de que chave abre
o quê, lembro-me de tigres a lamber zircónio nas
florestas, lembro-me de segurar nádegas debaixo de água
e de sentir o calor de um sexo a envolver o meu sexo,
de como tudo aquilo fazia sentido debaixo de água,
de como é provável que fizesse mais sentido,
que fosse tudo mais coeso,
se respirássemos debaixo de
água.

Posted at 09:45 pm by groze
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lonely 2

…lonely gigolo…



Julia Kent - Idlewild



(a imagem do topo e a pequena, de lado, são cortesia de Edgar Libório, usadas com permissão)

   

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O Brilho das Cinzas

A língua pode renascer em qualquer altura.
O vento agita os ramos altos do cipreste;
no escuro mármore lê-se ainda o meu nome.
Morto, mas subitamente mais vivo,
ouço os vastos barulhos terrestres e o
anúncio subterrâneo da próxima catástrofe.
Rindo-me para os bichos de quem sou a fria
morada, abro e fecho os ossos do rosto
num esgar de gozo. «Em breve o meu corpo
regressará à superfície. Encontrar-me-eis,
ó gente humana, nas idênticas circunstâncias
do Juízo.» Nessa noite, os coveiros notaram
uma insólita agitação no fundo da terra.

Nuno Júdice, in O Mecanismo Romântico da Fragmentação (1972)


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