Sei que entre tudo o que sou muito disso é lixo. Muito disso não presta e não chega. Sei que entre tudo o que sou muito é assim também: vago e inconcreto, crescendo sem uma emoção real, sem esse acto de estender as mãos e no entanto choro muito porque não tenho ajuda. Sei também que custa respirar às vezes, que custa ser, existir, que leio demais e vejo filmes demais e peças de teatro demais e queria demasiadas vezes que a minha existência fosse assim uma existência de papel e símbolos - vivo como se fosse. Não me preocupo em arrumar o quarto nem a casa, tenho aranhas e teias adjacentes sobre a minha cama e sei que invariavelmente existem centopeias nos sítios escuros que os armários cobrem. Tudo o que eu sou é um movimento nenhum em torno da cabeça, não sinto porque penso tudo mas penso também que sinto. Porque penso que sinto, sinto factualmente e creio num fundo de mim, num âmago, que sinto mais do que penso mesmo que na verdade alheia isso seja falso. Olho a verdade alheia e não sei bem o que é, não a sei, não a toco, não a tomo, não me alimenta. É-me imprecisa e gasta, não me é real. Seguro numa bandeja de estanho a minha verdade e olho-a e como-a e entendo-a inteira - a culpa dos outros, os braços não nesse acto de comunhão dos outros, os olhos dos outros, o meu próprio temor de mim-mesmo, o susto lexical da minha figura existente, vivente, não-sombra, não-máquina, não-texto, não-vegetal, mas física, humana, sentimental, dormente por vezes. Sei que muito do que sou não é metáfora, não é figura: é homem que sangra e chora e ri e dança e canta e lê e vê e respira e às vezes foge. Foge mutas vezes o homem que sou porque é ridículo. Dá vontade de rir. Mas há homem em mim que é de outro universo, que nasceu inverso, num espelho, imagem reflectida de homem físico mas que é etéreo e é outro, oco, talvez, rouco, cansado, metafísico. É um reflexo e nessa imagem devolvida é tudo o que eu sinto (porque não sei de facto) que sou. Sei que muito de mim é lixo, muito pouco de entre as ruínas de mim-mesmo se pode tomar e servir a uma refeição, mas há uma parte ínfima que é voltaica e eléctrica e acende vontades humanas, há uma parte de mim que é sentimento e é livro, há partes do que eu escrevo que servem.
Às vezes sirvo.
Posted at 03:15 pm by pedro tiago
Astrophil April 5, 2007 01:54 PM PDT Ó EU, não queria também eu bater no "ceguinho", mas não deixas alternativa. Falar em pimba quando se escreve "o nada que sou, é o muito de alguém..."? Ai a pragmática; e a semântica; e a sintaxe...
"Olho a verdade alheia e não sei bem o que é, não a sei, não a toco, não a tomo, não me alimenta. É-me imprecisa e gasta, não me é real." Muito bom, Groze.
Letras de Babel April 5, 2007 01:48 AM PDT agora é que o baralhaste. ele já não estava muito certo entre "melâncolia" e "melâcolia", e lá tinhas de vir tu com essa forma estranha de escrever um sentimento que se está mesmo a ver que é acentuado...
Carla April 4, 2007 06:19 PM PDT Meu caro Eu são opiniões. Eu concordo com a Joana, está mt bom. Só é pena que algumas pessoas, que sim tem o direito de discordar e dizer NÃO GOSTO, o façam de um modo tão pouco civilizado... digamos que chega a ser até um tanto ou quanto pimba.
groze April 4, 2007 06:18 PM PDT Ainda há pouco me criticava porque sou demasiado "pimba", agora diz que o meu estilo de escrita não prevalece e que portanto tenho que optar pelas "modas"... decida-se, homem. Ou sou pimba ou estou fora de moda.
Quanto a eu ter a mania que sei escrever ou que escrevo, não é de todo verdade. Se o ouviu ou leu de alguém, não foi de mim, concerteza. Tenho plena consciência de que o que aqui tenho não é grande literatura, nem perto disso, mas não pretendo que o seja. O que quero apenas é sentir e se há outras pessoas que possam sentir através do que escrevo, tudo bem, se não, não me ofendo nem me entristeço mais por isso.
EU April 4, 2007 06:10 PM PDT Mas eu não "tenho" a mania que sei escrever... Eu sou nada... Mas o nada que sou, é o muito de alguém...
Mas que escreves mal, lá isso escreves, se deixares de ser tão melancólico que até mete nojo, pode ser que até te safes... O teu estilo de escrita, teve exito há muito tempo atrás... hoje o tipo de escrita que prevalece é a pragmática e dolorosamente frontal... pensa nisso!
groze April 4, 2007 05:22 PM PDT Gosto de quem fala dos meus erros mas depois me escreve "melâncolia".
EU April 4, 2007 04:42 PM PDT Para ser totalmente sincero, não acho piada nenhuma. Parece-me um texto mal escrito, com erros, para além de gramaticais, fundamentalmente de pontuação e, acima de tudo, com uma acentuada predominância para a melâncolia... Escrever assim é fácil...
O dificil é escrever bem, sem nunca cair numa melâcolia sórdida e, desculpa lá, mas bastante pimba.
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A língua pode renascer em qualquer altura. O vento agita os ramos altos do cipreste; no escuro mármore lê-se ainda o meu nome. Morto, mas subitamente mais vivo, ouço os vastos barulhos terrestres e o anúncio subterrâneo da próxima catástrofe. Rindo-me para os bichos de quem sou a fria morada, abro e fecho os ossos do rosto num esgar de gozo. «Em breve o meu corpo regressará à superfície. Encontrar-me-eis, ó gente humana, nas idênticas circunstâncias do Juízo.» Nessa noite, os coveiros notaram uma insólita agitação no fundo da terra.
Nuno Júdice, in O Mecanismo Romântico da Fragmentação (1972)
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