lonely 1



Friday, October 02, 2009
halo #1

tudo o que existe, físico, existe nesse ínfimo
intervalo em que nos apercebemos que
é; como esta vinha, por entre a qual corremos,
as videiras corredores de verde e castanho
com as uvas, com as uvas roxas ou verdes
e o sol, e as arestas dos nossos corpos. mas
quando viramos costas a vinha já não
existe porque não nos apercebemos e deixámos
de a saber, cada pormenor e cada estrutura
botânica
orgânica
dramática

jorrando oxigénio e vida, sol e luz e água. os
meus antepassados que já morreram a pisar
este solo com as tesouras de poda e os cestos,
os cães tão magros correndo na distância das
colinas (que bonita imagem
as colinas) contra o pôr do sol. se servir eu faço
com que as videiras nas encostas ardam de tanta
vida e sobrevivam mesmo quando nos afastamos
e elas deixam de existir, desligam-se,
destroem-se, escondem-se, sementes
para o coração, verdades e mentiras e o que está no meio
de tudo isso. do meu chão repleto, da minha tigela
de leite azedo, existo do alto da minha idade, do
meu nome, mas não me vejo, apenas as mãos, as
pernas, o tronco, consigo tocar o meu rosto
mas quando o vejo é reflectido e por isso
pode ser outro rosto qualquer.

Posted at 12:52 am by groze

 

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…lonely gigolo…



Julia Kent - Idlewild



(a imagem do topo e a pequena, de lado, são cortesia de Edgar Libório, usadas com permissão)

   

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O Brilho das Cinzas

A língua pode renascer em qualquer altura.
O vento agita os ramos altos do cipreste;
no escuro mármore lê-se ainda o meu nome.
Morto, mas subitamente mais vivo,
ouço os vastos barulhos terrestres e o
anúncio subterrâneo da próxima catástrofe.
Rindo-me para os bichos de quem sou a fria
morada, abro e fecho os ossos do rosto
num esgar de gozo. «Em breve o meu corpo
regressará à superfície. Encontrar-me-eis,
ó gente humana, nas idênticas circunstâncias
do Juízo.» Nessa noite, os coveiros notaram
uma insólita agitação no fundo da terra.

Nuno Júdice, in O Mecanismo Romântico da Fragmentação (1972)


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