lonely 1



Friday, October 02, 2009
a província é um barco que se afasta

velhos a vapor batendo as peças de dominó
na mesa com a precisão de um relógio. na televisão
um documentário sem som sobre ursos e lobos. toda
a gente bebe café e bagaço, o chão é liso de muitos
passos, um padrão antigo e ultrapassado de losangos
interligados. as moscas ficam lá fora como os cães mas
às vezes dois ou três gatos passeiam-se por entre as pernas
dos velhos. os velhos não precisam das pernas, apenas dos dedos,
das mãos, batendo com tanta força as peças
do dominó no tampo de vidro das mesas. e os velhos
não precisam das cabeças e por isso crescem-lhes
as bocas, ali, puxadas pela gravidade em direcção ao chão,
sempre um cigarro inconsumível - um sinal divino -
entre os lábios. na telefonia ouvem-se músicas velhas
e por isso poder-se-ia dizer que tudo isto tem um
flitro estático, próprio da má recepção de rádio
no interior. e as raparigas passam na rua depois
do autocarro e os rapazes passam na rua depois
das raparigas. mas os velhos nunca acabam, estendem-se,
galácticos, deuses barulhentos de barbas e de bóinas
axadrezadas de tom castanho ou cinzento. e à noite
os rapazes nas janelas das raparigas, mas os velhos não.
toda a gente bebe café e bagaço, é possível que tenhamos
morrido todos e ninguém se tenha dado conta? no verão
a banda filarmónica nas procissões e nenhuma certeza. não
pretendia ter existido em mais nenhum outro local.

Posted at 02:21 am by groze

mortir
October 3, 2009   08:08 PM PDT
 
Já me fazia falta ler-te, principalmente desta maneira que me assoberba e me faz tão bem.

Excelente, como os outros que aqui figuram, mas este, particularmente, aprouve-me muito.

um abraço
 

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…lonely gigolo…



Julia Kent - Idlewild



(a imagem do topo e a pequena, de lado, são cortesia de Edgar Libório, usadas com permissão)

   

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O Brilho das Cinzas

A língua pode renascer em qualquer altura.
O vento agita os ramos altos do cipreste;
no escuro mármore lê-se ainda o meu nome.
Morto, mas subitamente mais vivo,
ouço os vastos barulhos terrestres e o
anúncio subterrâneo da próxima catástrofe.
Rindo-me para os bichos de quem sou a fria
morada, abro e fecho os ossos do rosto
num esgar de gozo. «Em breve o meu corpo
regressará à superfície. Encontrar-me-eis,
ó gente humana, nas idênticas circunstâncias
do Juízo.» Nessa noite, os coveiros notaram
uma insólita agitação no fundo da terra.

Nuno Júdice, in O Mecanismo Romântico da Fragmentação (1972)


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Dead Combo
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Fat-pie
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Festival de Jazz de Valado dos Frades
João Pombeiro
John Coltrane
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Miles Davis
Morphine (fanzine)
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The Tim Burton Collective
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