lonely 1



Tuesday, October 13, 2009
rigor mortis

Arbóreos, sintéticos, concretizamos
a beleza do mundo. pinças digitais esquecidas e
insensatas agarram no mundo despreocupadamente
e no meio, nós, corações despedaçados e vizinhos
afogamos sorrisos em metal fosforescente
acordamos e é sempre amanhã. sempre. ponto final
e, se quisermos, parágrafo morto hoje
nestas entranhas. tudo é música e de repente
a fonética perde o interesse e é carne de solstício
e gramáticas. e amanhã, e amanhã, quem me
disser que posso falar de amor vai morrer
gasto de todas as vidas antes. sobreviveremos a
mais uma se sobrevoarmos o tédio?
não temos respostas nenhumas e no entanto
escavamos teses em árvores perdidas sem
dentes do siso. todas as máquinas escondidas
entre os dedos parecem vácuo mas, no fundo,
são oxigénio e vida e água. nenhum cloro,
nenhuma fonte química pode impedir que o digamos:
envelhecemos tardiamente e a vida acaba-se assim.
Vamos dando fim a uma continuidade clássica
cheia de romantismos e maçãs. olvidamos
poemas que acabam e não cheiram nem sabem a nada.

groze & mortir

10/X/09

Posted at 05:47 pm by groze

 

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…lonely gigolo…



Julia Kent - Idlewild



(a imagem do topo e a pequena, de lado, são cortesia de Edgar Libório, usadas com permissão)

   

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O Brilho das Cinzas

A língua pode renascer em qualquer altura.
O vento agita os ramos altos do cipreste;
no escuro mármore lê-se ainda o meu nome.
Morto, mas subitamente mais vivo,
ouço os vastos barulhos terrestres e o
anúncio subterrâneo da próxima catástrofe.
Rindo-me para os bichos de quem sou a fria
morada, abro e fecho os ossos do rosto
num esgar de gozo. «Em breve o meu corpo
regressará à superfície. Encontrar-me-eis,
ó gente humana, nas idênticas circunstâncias
do Juízo.» Nessa noite, os coveiros notaram
uma insólita agitação no fundo da terra.

Nuno Júdice, in O Mecanismo Romântico da Fragmentação (1972)


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