lonely 1



Sunday, October 25, 2009
poema com sugestão fonética/ortográfica de leitura

Queimei minhas mãos em um incêndio
entardecido de imensas primaveras
fora de seu tempo. Queimei minhas sombras,
meus animais, meus gatos, meus insectos, minhas
feridas, minhas fotografias olhando de raspão
meus antepassados. Me alimentei de um mel
indizível, de uma música insubstancial, de uma
voz de poeta adormecido. E todas as primaveras
incendiaram meus dedos e meus cabelos,
e fui um cavalo percorrendo a estepe perene
da gramática.

"Queimei mim-àis mãuss eim um incêindjio
êntárrdjicido dji imeinsáis primávéráis
fora dji seu teimpo. Queimei mim-àis soumbras,
meus ánimais, meus gatos, meus insétos, mim-àis
firidáis, mim-àis fôtôgráfiás ôlhando dji ráispão
meus antj(i)pássáduss. Mi alimentei dji um méu
indjizívéu, dji uma música insubistanciáu, dji uma
voiss dji póétá adôrrmêcido. E tôdáis àis primávéráis
inceindjiaram meus dedos e meus cábêluis,
e fui um cáválo perrcorrêndo a istépi pêréni
da gramátxica."

Posted at 04:13 am by groze
comentários (4)  

Sunday, October 18, 2009
paradoxalmente, o jogador aproxima a mão do fogo e apanha a madeira em chamas

a caminho de casa quando abrimos a boca
falamos de ficção científica e do Star Trek
mas da versão com o Patrick Stewart a fazer
de Jean-Luc Picard, não a outra com o William
Shatner no papel de James T. Kirk e de mulheres
e eu concluo amargurado que nenhuma
mulher se apaixonará por mim nos próximos
milénios, entardecerei pouco luminoso
rodeado de palavras tristes. e sobrarei numa
pirâmide ou algo similar mas, por enquanto,
a boca sabe-nos terrivelmente a vinho tinto
e a ouro e neste presente tudo é perfeito,
conjugado para nós no meio do pó da
estrada, às tantas da manhã, com os nomes
dos amores passados escritos nas portas
da casa de banho do bar, juntamente com
números de telefone e endereços, na vaga
esperança de que alguém contacte essas
pessoas para fazer sexo. perdemos o surrealismo
pelo caminho e vamos procurando sem notar
por entre as pedras.

Posted at 05:59 am by groze
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Tuesday, October 13, 2009
rigor mortis

Arbóreos, sintéticos, concretizamos
a beleza do mundo. pinças digitais esquecidas e
insensatas agarram no mundo despreocupadamente
e no meio, nós, corações despedaçados e vizinhos
afogamos sorrisos em metal fosforescente
acordamos e é sempre amanhã. sempre. ponto final
e, se quisermos, parágrafo morto hoje
nestas entranhas. tudo é música e de repente
a fonética perde o interesse e é carne de solstício
e gramáticas. e amanhã, e amanhã, quem me
disser que posso falar de amor vai morrer
gasto de todas as vidas antes. sobreviveremos a
mais uma se sobrevoarmos o tédio?
não temos respostas nenhumas e no entanto
escavamos teses em árvores perdidas sem
dentes do siso. todas as máquinas escondidas
entre os dedos parecem vácuo mas, no fundo,
são oxigénio e vida e água. nenhum cloro,
nenhuma fonte química pode impedir que o digamos:
envelhecemos tardiamente e a vida acaba-se assim.
Vamos dando fim a uma continuidade clássica
cheia de romantismos e maçãs. olvidamos
poemas que acabam e não cheiram nem sabem a nada.

groze & mortir

10/X/09

Posted at 05:47 pm by groze
impressões (digitais ou não)  

Monday, October 05, 2009
embriaguez de vinte cêntimos

Parecemos destrutivos neste propósito
estranho de permanecer vivos no sono
interno que nos mantém desiguais
e debitamos primaveras. estações. medos.
escutamos violência porta a porta
sabemos os lugares em que as horas morrem
mas as dobradiças vão-se partindo e o mundo
são idades. e perdemos as nossas vozes
sem que cheguemos sequer a vociferar o amor
ou a sua sintaxe. tudo o que somos é música
em bares pintados de cinzento escuro e
em homens antigos que morrem antes de tempo
e entregam, afinal, as vísceras para adopção
ou para adoção - pós-acordo. e as vísceras
constroem cidades rosáceas e apodrecidas
por dentro. bebemos limonada e sonhamos muito.
Denegrimos sonhos comuns enquanto
caminhamos. e tudo se nos revela abruptamente:
Os rios de sangue sem caravelas, as morsas
obsoletas. os velhos em chamas a amar segredos.
Não parecemos tão bonitos ao longe quando morremos
e não somos. toda a cidade se nos apresenta.
Paredes cinzentas e vitrais cor de rosa escondidos
e sob o céu da boca explodimos de luz
e vomitamos existência sem pedaços, uma solidez
estranha que nos faz aguentar ao longo da noite.

groze & mortir
5/X/09

Posted at 04:21 pm by groze
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Saturday, October 03, 2009
Trinca Espinhas

"quando morre um coração, é como se incendiassem
todas as florestas do mundo; e, quando digo isto, não
me refiro ao término das funções físicas, fisiológicas, do
coração enquanto músculo, mas, sim, ao cessar do encanto
e do sublime do coração enquanto veículo vocabular para
essa metafísica da alma."

quando incendeio uma morte é como se florestassem todos
os corações do mundo? perguntas, com a voz carregada de
lavagantes e de tabaco, sem que um interlocutor responda.

esperaríamos por um autocarro, de manhã, encostados
à parede do antigo hotel, com uma garrafa de vinho tinto
vazia e os olhos repletos de certezas e de cavalos-marinhos.
com o coração ainda vivo ou pelo menos a acreditar veementemente
nisso. destruindo o estômago em detrimento.

Posted at 03:22 am by groze
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Friday, October 02, 2009
antipodismo

repitomeporqueascoisasquetenhoparadizer
serepetemnaextensãoexistencialdemimnão
éculpanãoéculpanãoéculpaquetudováacontecendo
queeumevádeixandoseremtudooqueéigualedepois
voltamasavesnaprimaveramasporenquantonãopor
enquantoéoutonoéoutubroeemoutubroosmeusirmãos
erepitomeporqueestoutãosempretãoapaixonadopor
tudoistoasmulhereseamúsicadaarquitecturamascomonãosei
tocarnenhuminstrumento

em-otiper.

e aprenderei um dia a fazer malabarismo com os pés.

Posted at 04:10 pm by groze
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in praise of Sara Marina's derrière

amanhece e o teu corpo? meio despido fumo à janela
e penso. não sou poeta de nada nem sequer te amo
mas se não estás fazes-me falta. e saio para tomar café
e afinal não era eu quem estava no centro deste poema
eras tu mesmo que estivesses longe e outras
mãos te arrastassem pela rua. ao menos as noites,
olha, ao menos as noites, querida, meu amor...

e antes de adormecermos volto a calçar as meias e visto
uma camisola que, isto, no litoral, faz frio
mesmo com um cobertor. se amanhã quiseres
podemos tomar juntos o pequeno-almoço
no meu café do costume.

Posted at 03:47 pm by groze
impressões (digitais ou não)  

a província é um barco que se afasta

velhos a vapor batendo as peças de dominó
na mesa com a precisão de um relógio. na televisão
um documentário sem som sobre ursos e lobos. toda
a gente bebe café e bagaço, o chão é liso de muitos
passos, um padrão antigo e ultrapassado de losangos
interligados. as moscas ficam lá fora como os cães mas
às vezes dois ou três gatos passeiam-se por entre as pernas
dos velhos. os velhos não precisam das pernas, apenas dos dedos,
das mãos, batendo com tanta força as peças
do dominó no tampo de vidro das mesas. e os velhos
não precisam das cabeças e por isso crescem-lhes
as bocas, ali, puxadas pela gravidade em direcção ao chão,
sempre um cigarro inconsumível - um sinal divino -
entre os lábios. na telefonia ouvem-se músicas velhas
e por isso poder-se-ia dizer que tudo isto tem um
flitro estático, próprio da má recepção de rádio
no interior. e as raparigas passam na rua depois
do autocarro e os rapazes passam na rua depois
das raparigas. mas os velhos nunca acabam, estendem-se,
galácticos, deuses barulhentos de barbas e de bóinas
axadrezadas de tom castanho ou cinzento. e à noite
os rapazes nas janelas das raparigas, mas os velhos não.
toda a gente bebe café e bagaço, é possível que tenhamos
morrido todos e ninguém se tenha dado conta? no verão
a banda filarmónica nas procissões e nenhuma certeza. não
pretendia ter existido em mais nenhum outro local.

Posted at 02:21 am by groze
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halo #1

tudo o que existe, físico, existe nesse ínfimo
intervalo em que nos apercebemos que
é; como esta vinha, por entre a qual corremos,
as videiras corredores de verde e castanho
com as uvas, com as uvas roxas ou verdes
e o sol, e as arestas dos nossos corpos. mas
quando viramos costas a vinha já não
existe porque não nos apercebemos e deixámos
de a saber, cada pormenor e cada estrutura
botânica
orgânica
dramática

jorrando oxigénio e vida, sol e luz e água. os
meus antepassados que já morreram a pisar
este solo com as tesouras de poda e os cestos,
os cães tão magros correndo na distância das
colinas (que bonita imagem
as colinas) contra o pôr do sol. se servir eu faço
com que as videiras nas encostas ardam de tanta
vida e sobrevivam mesmo quando nos afastamos
e elas deixam de existir, desligam-se,
destroem-se, escondem-se, sementes
para o coração, verdades e mentiras e o que está no meio
de tudo isso. do meu chão repleto, da minha tigela
de leite azedo, existo do alto da minha idade, do
meu nome, mas não me vejo, apenas as mãos, as
pernas, o tronco, consigo tocar o meu rosto
mas quando o vejo é reflectido e por isso
pode ser outro rosto qualquer.

Posted at 12:52 am by groze
impressões (digitais ou não)  

cérebros migratórios

da minha boca brotarão flores
e das minhas mãos

Posted at 12:51 am by groze
impressões (digitais ou não)  

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lonely 2

…lonely gigolo…



Julia Kent - Idlewild



(a imagem do topo e a pequena, de lado, são cortesia de Edgar Libório, usadas com permissão)

   

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O Brilho das Cinzas

A língua pode renascer em qualquer altura.
O vento agita os ramos altos do cipreste;
no escuro mármore lê-se ainda o meu nome.
Morto, mas subitamente mais vivo,
ouço os vastos barulhos terrestres e o
anúncio subterrâneo da próxima catástrofe.
Rindo-me para os bichos de quem sou a fria
morada, abro e fecho os ossos do rosto
num esgar de gozo. «Em breve o meu corpo
regressará à superfície. Encontrar-me-eis,
ó gente humana, nas idênticas circunstâncias
do Juízo.» Nessa noite, os coveiros notaram
uma insólita agitação no fundo da terra.

Nuno Júdice, in O Mecanismo Romântico da Fragmentação (1972)


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Bungle Fever
Charlie "Yardbird" Parker
Dario Mitidieri
Dead Combo
Edgar Libório
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Fat-pie
Gogol Bordello
Festival de Jazz de Valado dos Frades
João Pombeiro
John Coltrane
John Howe
JP Simões
The Kills
Mark Ryden
Menomena
Miles Davis
Morphine (fanzine)
Peter Gric
The Encyclopedia Of Arda
The Tim Burton Collective
The World Of Stainboy

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