se ouço camélia não penso ânus a menos que o escreva, aí, ao escrever "camélia" escrevo na verdade ânus análogo a uma flor, como se se abrisse, pétalas de carne, exalando um perfume gelado conforme movemos os corpos um contra o outro nesta fricção intercalada. e a esta mesa imagino deus entrando e dizendo rodeado de relâmpagos e faíscas "a pack o' Luckies!"
refugiando-se em seguida num mar de casacos e de flores, procurando nos bolsos a forma metálica dessa caixa que dava pelo nome de fisherman's friend.
poema com sugestão fonética/ortográfica de leitura
Queimei minhas mãos em um incêndio entardecido de imensas primaveras fora de seu tempo. Queimei minhas sombras, meus animais, meus gatos, meus insectos, minhas feridas, minhas fotografias olhando de raspão meus antepassados. Me alimentei de um mel indizível, de uma música insubstancial, de uma voz de poeta adormecido. E todas as primaveras incendiaram meus dedos e meus cabelos, e fui um cavalo percorrendo a estepe perene da gramática.
"Queimei mim-àis mãuss eim um incêindjio êntárrdjicido dji imeinsáis primávéráis fora dji seu teimpo. Queimei mim-àis soumbras, meus ánimais, meus gatos, meus insétos, mim-àis firidáis, mim-àis fôtôgráfiás ôlhando dji ráispão meus antj(i)pássáduss. Mi alimentei dji um méu indjizívéu, dji uma música insubistanciáu, dji uma voiss dji póétá adôrrmêcido. E tôdáis àis primávéráis inceindjiaram meus dedos e meus cábêluis, e fui um cáválo perrcorrêndo a istépi pêréni da gramátxica."
paradoxalmente, o jogador aproxima a mão do fogo e apanha a madeira em chamas
a caminho de casa quando abrimos a boca falamos de ficção científica e do Star Trek mas da versão com o Patrick Stewart a fazer de Jean-Luc Picard, não a outra com o William Shatner no papel de James T. Kirk e de mulheres e eu concluo amargurado que nenhuma mulher se apaixonará por mim nos próximos milénios, entardecerei pouco luminoso rodeado de palavras tristes. e sobrarei numa pirâmide ou algo similar mas, por enquanto, a boca sabe-nos terrivelmente a vinho tinto e a ouro e neste presente tudo é perfeito, conjugado para nós no meio do pó da estrada, às tantas da manhã, com os nomes dos amores passados escritos nas portas da casa de banho do bar, juntamente com números de telefone e endereços, na vaga esperança de que alguém contacte essas pessoas para fazer sexo. perdemos o surrealismo pelo caminho e vamos procurando sem notar por entre as pedras.
Arbóreos, sintéticos, concretizamos a beleza do mundo. pinças digitais esquecidas e insensatas agarram no mundo despreocupadamente e no meio, nós, corações despedaçados e vizinhos afogamos sorrisos em metal fosforescente acordamos e é sempre amanhã. sempre. ponto final e, se quisermos, parágrafo morto hoje nestas entranhas. tudo é música e de repente a fonética perde o interesse e é carne de solstício e gramáticas. e amanhã, e amanhã, quem me disser que posso falar de amor vai morrer gasto de todas as vidas antes. sobreviveremos a mais uma se sobrevoarmos o tédio? não temos respostas nenhumas e no entanto escavamos teses em árvores perdidas sem dentes do siso. todas as máquinas escondidas entre os dedos parecem vácuo mas, no fundo, são oxigénio e vida e água. nenhum cloro, nenhuma fonte química pode impedir que o digamos: envelhecemos tardiamente e a vida acaba-se assim. Vamos dando fim a uma continuidade clássica cheia de romantismos e maçãs. olvidamos poemas que acabam e não cheiram nem sabem a nada.
Parecemos destrutivos neste propósito estranho de permanecer vivos no sono interno que nos mantém desiguais e debitamos primaveras. estações. medos. escutamos violência porta a porta sabemos os lugares em que as horas morrem mas as dobradiças vão-se partindo e o mundo são idades. e perdemos as nossas vozes sem que cheguemos sequer a vociferar o amor ou a sua sintaxe. tudo o que somos é música em bares pintados de cinzento escuro e em homens antigos que morrem antes de tempo e entregam, afinal, as vísceras para adopção ou para adoção - pós-acordo. e as vísceras constroem cidades rosáceas e apodrecidas por dentro. bebemos limonada e sonhamos muito. Denegrimos sonhos comuns enquanto caminhamos. e tudo se nos revela abruptamente: Os rios de sangue sem caravelas, as morsas obsoletas. os velhos em chamas a amar segredos. Não parecemos tão bonitos ao longe quando morremos e não somos. toda a cidade se nos apresenta. Paredes cinzentas e vitrais cor de rosa escondidos e sob o céu da boca explodimos de luz e vomitamos existência sem pedaços, uma solidez estranha que nos faz aguentar ao longo da noite.
"quando morre um coração, é como se incendiassem todas as florestas do mundo; e, quando digo isto, não me refiro ao término das funções físicas, fisiológicas, do coração enquanto músculo, mas, sim, ao cessar do encanto e do sublime do coração enquanto veículo vocabular para essa metafísica da alma."
quando incendeio uma morte é como se florestassem todos os corações do mundo? perguntas, com a voz carregada de lavagantes e de tabaco, sem que um interlocutor responda.
esperaríamos por um autocarro, de manhã, encostados à parede do antigo hotel, com uma garrafa de vinho tinto vazia e os olhos repletos de certezas e de cavalos-marinhos. com o coração ainda vivo ou pelo menos a acreditar veementemente nisso. destruindo o estômago em detrimento.
amanhece e o teu corpo? meio despido fumo à janela e penso. não sou poeta de nada nem sequer te amo mas se não estás fazes-me falta. e saio para tomar café e afinal não era eu quem estava no centro deste poema eras tu mesmo que estivesses longe e outras mãos te arrastassem pela rua. ao menos as noites, olha, ao menos as noites, querida, meu amor...
e antes de adormecermos volto a calçar as meias e visto uma camisola que, isto, no litoral, faz frio mesmo com um cobertor. se amanhã quiseres podemos tomar juntos o pequeno-almoço no meu café do costume.
velhos a vapor batendo as peças de dominó na mesa com a precisão de um relógio. na televisão um documentário sem som sobre ursos e lobos. toda a gente bebe café e bagaço, o chão é liso de muitos passos, um padrão antigo e ultrapassado de losangos interligados. as moscas ficam lá fora como os cães mas às vezes dois ou três gatos passeiam-se por entre as pernas dos velhos. os velhos não precisam das pernas, apenas dos dedos, das mãos, batendo com tanta força as peças do dominó no tampo de vidro das mesas. e os velhos não precisam das cabeças e por isso crescem-lhes as bocas, ali, puxadas pela gravidade em direcção ao chão, sempre um cigarro inconsumível - um sinal divino - entre os lábios. na telefonia ouvem-se músicas velhas e por isso poder-se-ia dizer que tudo isto tem um flitro estático, próprio da má recepção de rádio no interior. e as raparigas passam na rua depois do autocarro e os rapazes passam na rua depois das raparigas. mas os velhos nunca acabam, estendem-se, galácticos, deuses barulhentos de barbas e de bóinas axadrezadas de tom castanho ou cinzento. e à noite os rapazes nas janelas das raparigas, mas os velhos não. toda a gente bebe café e bagaço, é possível que tenhamos morrido todos e ninguém se tenha dado conta? no verão a banda filarmónica nas procissões e nenhuma certeza. não pretendia ter existido em mais nenhum outro local.
tudo o que existe, físico, existe nesse ínfimo intervalo em que nos apercebemos que é; como esta vinha, por entre a qual corremos, as videiras corredores de verde e castanho com as uvas, com as uvas roxas ou verdes e o sol, e as arestas dos nossos corpos. mas quando viramos costas a vinha já não existe porque não nos apercebemos e deixámos de a saber, cada pormenor e cada estrutura botânica orgânica dramática
jorrando oxigénio e vida, sol e luz e água. os meus antepassados que já morreram a pisar este solo com as tesouras de poda e os cestos, os cães tão magros correndo na distância das colinas (que bonita imagem as colinas) contra o pôr do sol. se servir eu faço com que as videiras nas encostas ardam de tanta vida e sobrevivam mesmo quando nos afastamos e elas deixam de existir, desligam-se, destroem-se, escondem-se, sementes para o coração, verdades e mentiras e o que está no meio de tudo isso. do meu chão repleto, da minha tigela de leite azedo, existo do alto da minha idade, do meu nome, mas não me vejo, apenas as mãos, as pernas, o tronco, consigo tocar o meu rosto mas quando o vejo é reflectido e por isso pode ser outro rosto qualquer.
A língua pode renascer em qualquer altura. O vento agita os ramos altos do cipreste; no escuro mármore lê-se ainda o meu nome. Morto, mas subitamente mais vivo, ouço os vastos barulhos terrestres e o anúncio subterrâneo da próxima catástrofe. Rindo-me para os bichos de quem sou a fria morada, abro e fecho os ossos do rosto num esgar de gozo. «Em breve o meu corpo regressará à superfície. Encontrar-me-eis, ó gente humana, nas idênticas circunstâncias do Juízo.» Nessa noite, os coveiros notaram uma insólita agitação no fundo da terra.
Nuno Júdice, in O Mecanismo Romântico da Fragmentação (1972)
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