lonely 1



Friday, October 02, 2009
cérebros migratórios

da minha boca brotarão flores
e das minhas mãos

Posted at 12:51 am by groze
impressões (digitais ou não)  

Monday, September 28, 2009
poliester

os nossos tradutores bíblicos
tão desinteressantes na sua tradução
não nos souberam dar a imagem
mítica de um qualquer behemot,

beemote,

só tendo sabido traduzi-lo
por
hipopótamo. e assim
destruiram parte da mitologia
interessante que resta no nosso
judaico-cristianismo
moderno.

Posted at 04:44 pm by groze
comentário (1)  

pós-luminária

adão e eva de vidro e plástico transparentes descendo a rua
sem que nenhum brilho nenhuma luz nenhuma vida no rosto ou
no peito lembrando músicas muito velhas na rádio e conversas
com amigos até às cinco da manhã quando o tempo era outro
e a velocidade de viver não se tinha tornado numa sobrevivência
que aliás era uma
sub-
vivência (um lugar comum da semântica deste autor já se vê)
e à noite nos bares frente a frente talvez nem se apercebessem
que um e o outro iam sendo um para o outro também a mesma
coisa o mesmo refúgio o mesmo pulsar de não cansaço de
lábios húmidos e de cabeças imaginárias entre pernas imaginárias
e nas paredes escreviam-se as mesmas palavras de ordem
o país e o mundo continuavam na escavação das suas próprias
fundações e na bíblia quando se batia numa rocha logo
jorrava leite e mel aos domingos nas leituras
essa epiclese estranha que o era só de nome tudo sob os olhos
era estranho como se a máquina orgânica dos corpos
tivesse deixado de saber como funcionar devido a tanta
evolução das máquinas em redor
tigres e hienas nos quadros dos museus e os manequins
de alfaiate de Chirico em contraste com a aridez da vida
contemporânea que ia sendo vida num sentido muito
nominal
apenas

Posted at 12:26 pm by groze
impressões (digitais ou não)  

Sunday, September 20, 2009
um coração vegetal

ponho de lado o pão e a água até tudo o que
resta a minha frente ser um prato com algumas
migalhas, e, depois, até limpo essas migalhas
com um pano humedecido, um pano de cozinha,
branco aos quadrados vermelhos. e, então, observo
o prato, na esperança de ter alguma epifania, com o
pão e água fora do caminho, sem distracções,
só a forma circular do prato e, ao lado, um
pano de cozinha humedecido cheio de migalhas.

Posted at 08:19 pm by groze
impressões (digitais ou não)  

Wednesday, September 16, 2009
mais um pequeno axioma teológico antitético

meu Deus,
se Te cresse,
dir-Te-ia
verdadeiramente
que Te sei
inútil.

Posted at 02:43 am by groze
comentário (1)  

Monday, September 07, 2009
Rita

deitado neste colo
sei que não tenho nada
que não sejam estas
aves migratórias
que partem de mim
em direcção à
eternidade
levando nos bicos
pedaços de pâncreas
e vesículas

e estas aves são inúteis
porque não regressam
para me trazer notícias

nem os teus
olhos.

Posted at 05:22 am by groze
comentários (3)  

a minha doença hexagonal

depois de se preocupar com as mãos e os pés
eis que um vento podre de algas nos olhos
e um desequilíbrio de geometrias orgânicas:
os dentes rebentam dentro da boca e os
profetas todos partem de autocarro na auto-
-estrada em direcção aos matadouros, sabem
ser essa a sua missão. vão de olhos vendados
para na escuridão descobrirem a musicalidade
absoluta do coração, das suas paredes por
domesticar selvagens como animais eléctricos,
cães cavalgando pelos pomares à procura da imagem
perene do poema, construindo-o com o cimento
necessário e as imagens lá coladas com cuspo
como se fotografias de eventos reais; os pescadores
posam em frente aos prédios destruídos com uma
placa segura em frente do peito mas o vento é
que sai das imagens e ruge o poema, reduzindo
a importância do poeta a um quase nada
de lágrimas e de mãos que respondem como
máquinas às vicissitudes da economia.

Posted at 05:15 am by groze
impressões (digitais ou não)  

Sunday, September 06, 2009
os campos cultivados

digo-te esta saudade imensa; por vezes acordo e sei
o teu corpo ali como um braço ou uma perna mas
o teu corpo não existe, já não existe, feito de nudez
e de formas, os teus lábios mais cheios quando
fechavas os olhos e me dizias coisas que sabiam a farinha
galáctica nos ouvidos; o teu sexo também lábios rochosos,
uma fonte aberta, luminosa, gritando no meio da cama,
ora flor ora animal, e os teus seios quentes num inquieto
movimento de sombras e carne e sangue, os teus seios
veias e artérias quando fechavas os olhos sobre mim e
despejavas os teus cabelos no meu rosto como se fossem
uma nuvem. e eram.

toda a nostalgia, meu amor, porque não fechei as palavras
à chave e consequentemente elas ainda existem e ainda
se te dirigem contra a nossa vontade.

Posted at 07:25 pm by groze
impressões (digitais ou não)  

Saturday, September 05, 2009
(...)

desperdiço todo o tempo do mundo
na tarefa
de cortar as unhas das mãos
com um esforço
sobre-humano
com a língua de fora e os olhos
semi-cerrados e rebento
de todo esse trabalho
e fico todo iluminado
por dentro
como uma larva
grávida
de lâmpadas
eléctricas
acesas.

Posted at 04:05 am by groze
comentários (2)  

nem tudo o que tenho para dar, hoje, é luz.

No meu coração, tu morreste, assumamos isso desde já, para o pormos de parte. Morreste, és um espectro que amei e pelo qual me arrasto nestes dias assim, a ler poesia de noite para me lembrar de como e quanto falhei aos olhos dos meus professores e dos meus avós nos retratos. Não tenho um único retrato dos meus professores, nem teu, aliás, para o cobrir de teias de aranha e o tapar com folhas e pétalas de flores azuladas... permaneces, nessa morte, num estado de angústia e desassossego, apareces-me em sonhos contando verdades do que eras, coleccionando borboletas e outros animais assim que lembrem farrapos desajeitados caindo do céu sem nunca cairem mesmo, suspensos num movimento incompleto; coleccionas-me lágrimas e dedos, os meus dedos em torno dos teus seios como se, como se ainda... mas, não, tudo seco, tudo estéril, caminho sobre um arame branco que me fere os pés e, lá em baixo, é tudo estéril e não há nenhum terreno onde se possa plantar uma coisa que viva; falhei aos olhos dos meus avós e dos meus professores, os meus irmãos morreram antes de mim, olham-me do lado de lá dos meus avós e das flores azuis - esqueci-me de todos eles e de ti, que morreste no meu coração inteiro, mas amo-te ainda, toda a beleza do teu corpo e da tua voz ainda a rebentar dentro das minhas mãos, enterro o rosto em nuvens de flores azuis e suspiro que ainda te amo, é de noite e toda a poesia do mundo serve para abafar isso.

Posted at 03:53 am by groze
comentários (2)  

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lonely 2

…lonely gigolo…



Julia Kent - Idlewild



(a imagem do topo e a pequena, de lado, são cortesia de Edgar Libório, usadas com permissão)

   

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O Brilho das Cinzas

A língua pode renascer em qualquer altura.
O vento agita os ramos altos do cipreste;
no escuro mármore lê-se ainda o meu nome.
Morto, mas subitamente mais vivo,
ouço os vastos barulhos terrestres e o
anúncio subterrâneo da próxima catástrofe.
Rindo-me para os bichos de quem sou a fria
morada, abro e fecho os ossos do rosto
num esgar de gozo. «Em breve o meu corpo
regressará à superfície. Encontrar-me-eis,
ó gente humana, nas idênticas circunstâncias
do Juízo.» Nessa noite, os coveiros notaram
uma insólita agitação no fundo da terra.

Nuno Júdice, in O Mecanismo Romântico da Fragmentação (1972)


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Bungle Fever
Charlie "Yardbird" Parker
Dario Mitidieri
Dead Combo
Edgar Libório
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Fat-pie
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João Pombeiro
John Coltrane
John Howe
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The Kills
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Menomena
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Morphine (fanzine)
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The Encyclopedia Of Arda
The Tim Burton Collective
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