lonely 1



Thursday, July 19, 2012
nas palavras dos outros

estive
"lá"
tanto quanto possível
ao contrário de aqui
onde a ponta dos dedos
toca na base da coluna
vertebral e provoca
um arrepio. onde as
crianças perguntam
"quando dormimos
estamos acordados
noutro sítio?" e as
mães nunca lhes
respondem porque são
apenas vultos
dentro de batas
de aventais
e dessas batas
desses aventais
sobram mãos que
tocam nos olhos
tapam os olhos
inúteis das crianças.
estivémos todos

tanto quanto possível
e ouvimos as vozes
maculadas por uma
ferrugem e por um
resto de mercúrio
e vidro estilhaçado e
quando dormimos
é possível mesmo
que estejamos acordados
noutro sítio. ou então
resta-nos ver como
envelhecem as latas
de metal cuja voz
enferruja despida de
anjos de deuses só
cilindros de metal abandonados
no meio dos elementos
"terra
água
ar
fogo"
sem voz sem nada
sem nenhuma vontade
incapazes. tanto quanto
possível toquei na alma
das coisas e a alma
das coisas magoou-me.

Posted at 12:41 am by pedro tiago
impressoes (digitais ou nao)  

Wednesday, July 18, 2012
colóquio

o coração
trata-se de um
erro menor,
uma casa sem
sons, sem
habitantes.

a menos que,
de vez em quando,
se encontre
um propósito,
se ache
uma superfície
aquática -
líquida -
que reflicta
tudo
menos dor
e ansiedade.

então, o coração
não é um erro,
é um músculo
tão electromagnético
quanto os
músculos conseguem
ser.

Posted at 01:29 am by pedro tiago
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Thursday, July 12, 2012
exercício

este é o espaço para o teu nome.
vou sempre criar espaço para o
teu nome, ele ocupa todo o espaço,
todas as letras, todo o coração,
queima como uma revelação
bíblica, é um guarda-fatos de
fotografias. aqui é o espaço para
o teu nome, a voz para vocalizar
o teu nome, o amor escuro que
sintetiza o teu nome correndo
no meio de arbustos, fontes
e letras. e o teu nome é um
abraço musical onde te seguras.

Posted at 11:11 pm by pedro tiago
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Sunday, July 08, 2012
cidade

o tempo pode ter a duração
de um braço ou dos cabelos
que se deixaram nos barbeiros
e que acabam por formar um
rio com o resto do lixo, independentes
das mãos que os tocaram,
que os puxaram, dos lábios
que os beijaram, dos rostos em que
tocaram quando em cadência os
corpos se ofereciam na planta
do sexo. nem sempre os cabelos
foram lixo, objecto de asco no meio
da água, mortos, despidos de toda
a beleza possível. e é isso que o
tempo dura, uma chave que roda
com peso num cadeado, numa porta.
nunca as portas dão para algum lugar
que valha realmente a pena.

Posted at 09:22 pm by pedro tiago
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Saturday, July 07, 2012
s. miguel

vejo os nomes nas pedras.
piso as pedras. os nomes
nas pedras não me dizem
absolutamente nada mas
numa época que já não
a minha falaram, moveram-se
como me movo sobre
as pedras, regaram
plantas, tiveram febres,
cancros, constipações.
noutros poemas li mais
ou menos as mesmas coisas,
porque é natural pensar-se
nisto: as vidas dos mortos.
agora são nomes e não
me dizem nada, não me
comunicam nada - é também
por culpa dos dias de hoje,
a minha insensibilidade, o meu
caroço de simpatia tão difícil
de aceder por causa da carne
de egoísmo que o rodeia.
posso imaginar a vida
dos mortos dentro destes
muros, o silêncio da vida dos
mortos, as suas sombras, os
dias em que choveu muito e
apanharam doenças, os dias em
que morreram porque choveu muito,
enquanto os cavalos corriam
junto ao rio sem essas preocupações.
a minha inutilidade é que se mostra,
total e inteira, quando noto que
nem sei quem são os mortos,
e esses que a minha imaginação
ressuscita são só projectos de almas
mudas que não pertencem a nenhum sítio.

Posted at 02:12 am by pedro tiago
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Friday, July 06, 2012
le lieu de votre visage

traduz um espelho
deste lado
o teu corpo
queima os dedos
deste lado
dos espelhos
e a tua boca
segura esta colher
de plástico
quando comes
dos boiões com
preparado de
comida para bebés
lê um espelho
no corpo
todo
descasca um fruto
olha para um fruto
e queima os
dedos
antes de ires
embora
trabalhar a respiração
lá fora
sem abrigo
sem refúgio
dos micróbios
das pessoas
dos animais
selvagens
nem das flores
a tua pele queima
os dedos
quando descascamos
a roupa e ficas
apenas com
cabelo e olhos e braços
e ombros e nudez
e o teu rosto no
escuro
diz palavras com uma
forma assustadora
numa língua
de mamíferos
gigantescos.

Posted at 04:44 am by pedro tiago
impressoes (digitais ou nao)  

um processo de electrólise

uma meia no meio do lixo da casa
em cima de um livro teu, para que
me lembre que o amor são antes
de mais insectos quotidianos,
insignificâncias com um valor exacerbado,
permanências das mãos, dos lábios,
dos olhos, coisas que te edificaram
ao longe, quando o tempo não era
nosso em comunhão. sentir
falta do edifício do teu corpo quando
vejo uma meia e um livro no meio
do lixo da casa, faróis nocturnos
que apontam um local onde desembarcar
não é perigoso.

Posted at 12:33 am by pedro tiago
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Thursday, July 05, 2012
fogo de artifício e húmus

os homens do serviço de meteorologia
percebem mais de poesia do que eu
quando me dizem à distância ao longo
dos cabos do cobre da fibra óptica
que estão 17 graus centígrados na
zona do Cabo Carvoeiro só que não
pensam nisso e eu sim eu penso
nisso e observo-os a construir um
conjunto de metáforas de imagens de
poemas ao longo de várias gerações
guardados em livros em armários em
arquivos de televisão em caches de
sites na internet os homens da meteorologia
funcionam como demiurgos invisíveis
a mexer numa música magnética de
fios de satélites de aviões minúsculos
que deixam um rasto de nuvens brancas
artificiais iguais à formação em V das
aves migratórias mas os homens da
meteorologia não se apercebem destas
coisas a sua única preocupação
é não confundir a humidade do ar
e a velocidade do vento com um
violoncelo.

Posted at 04:19 am by pedro tiago
impressoes (digitais ou nao)  

Wednesday, July 04, 2012
portas, gavetas, julho

para a Sara

tocas-me com a ponta dos dedos porque
a tua pele é uma película de filme e
à luz conta segredos com uma certa
cinematografia obscura. mas quando
me tocas com os lábios nos ombros
e no pescoço é outra coisa, é como
se um casulo se rasgasse sem sangue
nem líquidos, só seco do sol, a soltar
lá de dentro um animal fraco que procura
aninhar-se no meio das tuas pernas.

Posted at 05:11 pm by pedro tiago
impressoes (digitais ou nao)  

Tuesday, July 03, 2012
rusty cartoons

escolheu um serrote para colher
a garganta, encostou a lâmina à
pele e lembrou-se do tremendo
lugar-comum que é a palavra
lâmina. para qualquer efeito,
o quão usadas estão as imagens
de morte nos poemas, a facilidade
com que se usam. procurou
num casaco por alguns trocos,
encontrou um rebuçado de mentol,
duas moedas escuras, um pedaço
de cotão. estava frio na rua,
o dinheiro não chegava para um
copo de vinho no café em frente.
era mais fácil a insuficiência renal.

Posted at 09:20 pm by pedro tiago
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lonely 2

…lonely gigolo…



Julia Kent - Idlewild



(a imagem do topo e a pequena, de lado, são cortesia de Edgar Libório, usadas com permissão)

   

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O Brilho das Cinzas

A língua pode renascer em qualquer altura.
O vento agita os ramos altos do cipreste;
no escuro mármore lê-se ainda o meu nome.
Morto, mas subitamente mais vivo,
ouço os vastos barulhos terrestres e o
anúncio subterrâneo da próxima catástrofe.
Rindo-me para os bichos de quem sou a fria
morada, abro e fecho os ossos do rosto
num esgar de gozo. «Em breve o meu corpo
regressará à superfície. Encontrar-me-eis,
ó gente humana, nas idênticas circunstâncias
do Juízo.» Nessa noite, os coveiros notaram
uma insólita agitação no fundo da terra.

Nuno Júdice, in O Mecanismo Romântico da Fragmentação (1972)


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Bungle Fever
Charlie "Yardbird" Parker
Dario Mitidieri
Dead Combo
Edgar Libório
Entrance to The Neitherworld
Fat-pie
Gogol Bordello
Festival de Jazz de Valado dos Frades
João Pombeiro
John Coltrane
John Howe
JP Simões
The Kills
Mark Ryden
Menomena
Miles Davis
Morphine (fanzine)
Peter Gric
The Encyclopedia Of Arda
The Tim Burton Collective
The World Of Stainboy

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A Caixa
A liga de Murphy
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