Entry: a província é um barco que se afasta Friday, October 02, 2009



velhos a vapor batendo as peças de dominó
na mesa com a precisão de um relógio. na televisão
um documentário sem som sobre ursos e lobos. toda
a gente bebe café e bagaço, o chão é liso de muitos
passos, um padrão antigo e ultrapassado de losangos
interligados. as moscas ficam lá fora como os cães mas
às vezes dois ou três gatos passeiam-se por entre as pernas
dos velhos. os velhos não precisam das pernas, apenas dos dedos,
das mãos, batendo com tanta força as peças
do dominó no tampo de vidro das mesas. e os velhos
não precisam das cabeças e por isso crescem-lhes
as bocas, ali, puxadas pela gravidade em direcção ao chão,
sempre um cigarro inconsumível - um sinal divino -
entre os lábios. na telefonia ouvem-se músicas velhas
e por isso poder-se-ia dizer que tudo isto tem um
flitro estático, próprio da má recepção de rádio
no interior. e as raparigas passam na rua depois
do autocarro e os rapazes passam na rua depois
das raparigas. mas os velhos nunca acabam, estendem-se,
galácticos, deuses barulhentos de barbas e de bóinas
axadrezadas de tom castanho ou cinzento. e à noite
os rapazes nas janelas das raparigas, mas os velhos não.
toda a gente bebe café e bagaço, é possível que tenhamos
morrido todos e ninguém se tenha dado conta? no verão
a banda filarmónica nas procissões e nenhuma certeza. não
pretendia ter existido em mais nenhum outro local.

   1 comments

mortir
October 3, 2009   08:08 PM PDT
 
Já me fazia falta ler-te, principalmente desta maneira que me assoberba e me faz tão bem.

Excelente, como os outros que aqui figuram, mas este, particularmente, aprouve-me muito.

um abraço

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