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na mesa com a precisão de um relógio. na televisão um documentário sem som sobre ursos e lobos. toda a gente bebe café e bagaço, o chão é liso de muitos passos, um padrão antigo e ultrapassado de losangos interligados. as moscas ficam lá fora como os cães mas às vezes dois ou três gatos passeiam-se por entre as pernas dos velhos. os velhos não precisam das pernas, apenas dos dedos, das mãos, batendo com tanta força as peças do dominó no tampo de vidro das mesas. e os velhos não precisam das cabeças e por isso crescem-lhes as bocas, ali, puxadas pela gravidade em direcção ao chão, sempre um cigarro inconsumível - um sinal divino - entre os lábios. na telefonia ouvem-se músicas velhas e por isso poder-se-ia dizer que tudo isto tem um flitro estático, próprio da má recepção de rádio no interior. e as raparigas passam na rua depois do autocarro e os rapazes passam na rua depois das raparigas. mas os velhos nunca acabam, estendem-se, galácticos, deuses barulhentos de barbas e de bóinas axadrezadas de tom castanho ou cinzento. e à noite os rapazes nas janelas das raparigas, mas os velhos não. toda a gente bebe café e bagaço, é possível que tenhamos morrido todos e ninguém se tenha dado conta? no verão a banda filarmónica nas procissões e nenhuma certeza. não pretendia ter existido em mais nenhum outro local. |
| mortir October 3, 2009 08:08 PM PDT Já me fazia falta ler-te, principalmente desta maneira que me assoberba e me faz tão bem. Excelente, como os outros que aqui figuram, mas este, particularmente, aprouve-me muito. um abraço | ||
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